A Solução é saber Lidar com o Poder e a Cultura nas Empresas
“(...) o príncipe deve ser ponderado em seu
pensamento e ação, não ter medo de si mesmo e proceder de forma equilibrada,
com prudência e humildade, para que a excessiva confiança não o torne incauto,
nem a exagerada desconfiança o faça intolerável”.
Nicolau
Maquiavel
Uma questão
presente na era da informação é de que forma estão relacionados poder e cultura
nas organizações e de que modo ambos interagem? Analisar as organizações
contemporâneas à luz do estudo de suas formas de poder e conhecendo sua cultura
é buscar o refinamento dos processos que explicam sua própria razão de ser. E a
forma como se posicionam no mercado perante os concorrentes e clientes. Hoje em
dia com a crescente onda de globalização da economia, passa-se a ter, por mais
distintas que sejam as estruturas sociais, econômicas e culturais, uma
aproximação muito grande com os mercados de quaisquer partes do mundo.
As organizações,
públicas e privadas do ramo que seja sentem cada vez mais de perto as
conseqüências dessa globalização. Assim, é possível entender como o poder não é
só aquilo que se manifesta no interior da organização, mas também aquela influência
que uma organização tem sobre outra e ainda como a inter-relação destas atua no
conjunto e nos resultados de cada qual. Pode-se considerar, desse modo, que a
interdependência aqui citada, seja diretamente ampliada à medida que os
processos de globalização - ou influências globais - da economia sejam ampliados.
A cultura, por sua vez, deveria estar relacionada ao significado da
organização, ou, numa leitura mais adequada, a imagem de uma organização
deveria refletir seus traços culturais, como sincero retrato da sua identidade,
isto é, como uma empresa é visualizada no mercado em geral, como fornecedor,
cliente ou concorrente.
Definindo Organização
Srour define
a organização como “agentes coletivos, à semelhança das classes sociais, das
categorias sociais e dos públicos” que “são planejadas de forma deliberada para
realizar um determinado objetivo”. As organizações podem ser públicas,
privadas, sem fins lucrativos, filantrópicos e ONG’s. As organizações, desde o
tempo dos mais antigos estudiosos da administração, como Fourier, Morelly,
Blanc, Saint Simon, passando pelos tradicionais Taylor e Fayol, preocupavam-se
primordialmente com a estrutura. Foi Elton Mayo, já na terceira década do
século XX, quem começou o questionamento sobre as relações humanas, dando
algumas das primeiras contribuições a essa temática, seguido principalmente por
Follet e Barnard. Este, no seu estudo da “Autoridade e Comunicação”, defendia
que “as pessoas têm motivações individuais e cooperam com os outros para
atingir certos propósitos”.
A visão
mecanicista, que encara a organização como estruturas rígidas, tem sido deixada
de lado de maneira inflexível por alguns estudiosos - como, por exemplo, Fritjof
Capra - e por algumas organizações, que propõem a chamada visão sistêmica, pela
qual se encaram as organizações como organismos vivos, as quais, dentro do paralelo,
desenvolvem-se e adaptam-se aos impulsos da realidade. Segundo Capra, “o controle
não é a melhor abordagem, mas sim a cooperação, o diálogo e a colaboração”. O século
XXI apresenta um momento de busca incessante pelo conhecimento da organização,
em que os staffs buscam prioritariamente a essência de suas corporações.
Definindo Poder
É neste
contexto que o poder deve ser visto como a possibilidade de decidir, de estar
em posição privilegiada em relação a um determinado grupo. Na organização “o
poder é uma relação social, não uma posse unilateral” (SROUR, 1998:135). E
ainda ele continua dizendo que “as relações sociais, internas às organizações,
articulam classes sociais e categorias sociais, e dizem respeito aos processos
de produção econômica, política e simbólica”, em que as classes sociais são,
nesse aspecto, empresários, gestores ou trabalhadores, as categorias sociais
são definidas por gênero, raça, etnia, religião, condições de atividade, etc.,
e, ainda nessa conceituação, cabe destacar os públicos, grupos de pessoas que
têm interesses e objetivos comuns, que os unem, podendo ser clientes,
fornecedores, eleitores, correntistas, etc.
O poder está
ligado às relações sociais já que é a partir destas que se faz presente e que
se faz necessário, atuando nos “processos de controle, de articulação, de
arbitragem e de deliberação” (SROUR, 1998:134). Dos princípios defendidos por
Maquiavel em sua obra “O Príncipe”, de que o poder deve ser conquistado e
quaisquer possibilidades de que este fique em xeque devem ser combatidas com a
força e a imediatez necessárias a dizimar na raiz quaisquer oposições. Tem-se no modo de mediação entre comandante e
comandados, nas organizações contemporâneas, a negociação como elemento-chave.
O poder hoje se manifesta, ainda, sob diversas formas. Mas a força não é um
modo exeqüível de manutenção do poder, ainda que nem todas as organizações
tenham suas atividades pautadas por princípios bem mais adequados à atualidade,
como os defendidos por pessoas como Capra.
Nesse
aspecto, Simões define que a essência das Relações Públicas “é a relação de
poder entre a organização e seus públicos”. Nesse processo de intermediação
política, Trindade diz que “toda organização, seja ela qual for, além dos seus
objetivos específicos (...) é um subsistema social no interior da sociedade
global. Enquanto subsistema social possui, em seu interior, relações sociais que
se denomina relação política”.
A liderança
pode ser vista como o fator determinante na atualidade. As organizações tendem
a buscar a chamada profissionalização de gestão, o que se manifesta quando “a
detenção do poder, que está em mãos dos proprietários, fica dissociada do
exercício do poder, concedido aos gestores assalariados” (SROUR, 1998:149), os
quais são escolhidos como representantes dos interesses dos reais detentores do
poder, os proprietários, que delegam seu exercício. Contudo, é importante
frisar que não somente cargos delegados devem ser avaliados nas relações de
poder nas organizações, já que “a liderança transcende cargos ou posições
formais, não carece de institucionalização, decorre da sintonia ‘espontânea’ e
informal estabelecida entre líderes e seguidores”, segundo o mesmo Srour.
O poder de
delegar cargos e funções é mantido nas mãos de proprietários e de gestores. A
liderança, por outro lado, é obtida de forma natural e espontânea, por motivos
diversos, pelos próprios grupos para quem o líder se torne referência. A
disputa pelo poder e domínio dos espaços, físicos e sociais, amplia-se quando
se percebe que a autoridade do poder divide-se em várias instâncias, entrando em
conflito pelos bens que a organização pode proporcionar a cada um (salários, benefícios)
bem como pelo status que se busca dentro da relação social no microcosmo
organizacional.
Definindo Cultura
Por outro lado
a cultura é um conjunto de padrões que permitem a adaptação dos agentes sociais
à natureza e à sociedade a qual pertencem, e faculta o controle sobre o meio
ambiente, ou segundo Vera Giangrande e José Carlos Figueiredo, “cada empresa
tem sua própria cultura, formada por normas e procedimentos que regem a conduta
dos funcionários”. A identidade da organização, diferente do conceito que se
tem da mesma, é definida por sua cultura organizacional, responsável por dar o
eixo necessário à união dos membros dessa sociedade em torno de objetivos, ações
e comportamentos. Cabe lembrar, como dito por Srour, que cada agrupamento
social, inclusive aqueles presentes nas organizações, tendem a superestimar
seus padrões de comportamento, desprezando outros, o que pode ser um elemento dificultador
- ou até mesmo facilitador - dos processos de mudança, e que, em muitos casos,
estes são vistos como ameaças e não como oportunidades.
Todos os
processos decorrentes do convívio social na organização são marcados pelos
traços culturais dessa organização. Geri-la, conviver em seu interior, obter a
participação e apoio dos grupos, deverá ser precedido do processo de compreensão
e aprendizagem de seu modo de agir por parte dos gestores, diretores e
proprietários.
As
organizações contemporâneas, no novo século, diante das rápidas modificações
ocasionadas pelo processo de globalização devem, antes de tudo, preparar-se
para constantes e cíclicas mudanças. Para estar em sintonia com os novos tempos,
é importante que seja dada a necessária atenção à cultura e que entre em cena
não apenas a figura do gestor, mas do agente de transformação, capaz de
administrar a visão maniqueísta de que a mudança deve necessariamente trazer
perigo ou tão somente oportunidade. O agente de transformação deve, pois, preparar
as pessoas, por meio de processos educacionais, para que respondam
criativamente ao stress e às demandas que todo processo de mudança
necessariamente traz.
Se no
processo de transformação é importante levar em conta a cultura da organização,
no processo de “aquisição” de novos parceiros, gestores, funcionários ou
colaboradores, também deverá sê-lo. Pois a aculturação do novo colaborador
envolve a compreensão das normas e dos procedimentos que norteiam a empresa,
culminando em sua aceitação por parte do grupo (...) sem mencionar o fato de
que, ao deixar uma empresa para trabalhar em outra, o funcionário demora algum
tempo para desvincular-se emocionalmente da anterior.
Organizações
que Aprendem
Dentro do
conceito de evolução ou transformação, é importante frisar a idéia da organização
sistêmica como elemento capaz de gerar autodesenvolvimento, as chamadas
“learning organization” (organizações que aprendem). Segundo Charles Handy, “as
empresas necessitam se transformar de forma consciente em empresas de aprendizagem,
locais onde a mudança seja uma oportunidade, onde as pessoas possam crescer à
medida que trabalham”. Essa transformação citada por ele tem relação com a
própria capacidade da empresa de manter-se viva diante das turbulências a que
está sujeita além das exigências que lhe impõe o mercado para que sobreviva.
A
transformação consciente significa também não ignorar a realidade e a cultura
organizacional existentes dentro da própria empresa. As organizações utilizam
diversos modos de criar e maximizar sua aprendizagem. Premissas básicas da cultura
organizacional levam a valores de aprendizagem e investimentos que produzem um
estilo de aprendizagem diferente de uma cultura organizacional com outro padrão
de valores e investimentos. Contudo, o
investimento na evolução de conceitos, a fim de buscar evolução, mas não se
desfazendo da tradição e dos conhecimentos adquiridos ao longo da existência da
organização, permitirão mais oxigênio na relação interna e com as demais
empresas componentes do cenário empresarial.
Elías Nova
Nova
Pós-graduado em Gestão Estratégica
de Pessoas para Negócios
Pós-graduado em Consultoria Empresarial
e-mail: eliasnova@gmail.com
Comentários
Postar um comentário